“É difícil deixar toda uma vida para trás. Há momentos bons, críticos, fáceis e difíceis”. O engenheiro mecânico Jesus deixou a Venezuela há 4 anos e encontrou no Brasil uma nova oportunidade de trabalho, mas no início não foi fácil. Até chegar ao emprego em uma multinacional de São Leopoldo, Jesus, que fez intercâmbio na Europa, fala inglês fluente e tem MBA, teve que trabalhar em uma função braçal sem carteira assinada, com dinheiro contado para sobreviver.

Assim como Jesus, Mohammed e Gilda também saíram de seus países por diversos motivos. Hoje pela manhã, eles vieram ao Colégio Anchieta para compartilhar com os alunos da 2ª Série do Ensino Médio um pouco de suas vivências como migrantes. Pelo segundo ano consecutivo, os alunos participam do projeto We are all immigrants, um trabalho realizado pelas professoras do Centro de Línguas e que conta com a parceria do CIBAI (Centro ítalo Brasileiro de Assistência e Instrução as Migrações).

A abertura do evento foi feita pelo Coordenador de Pastoral do Colégio Anchieta, Pe. Gustavo Assis, que ressaltou a importância desse trabalho para a formação integral dos alunos, alinhada à preocupação da Igreja Católica em relação ao assunto.

Na ocasião, os alunos puderam conhecer mais sobre o CIBAI e sua atuação no auxílio  aos migrantes, desde a acolhida, documentação, aulas de português até inserção no mercado de trabalho e ajuda emergencial em casos de migrantes em situação de vulnerabilidade. Pe. James-Son, à frente do trabalho no Centro, contou que desde a fundação do CIBAI, mais de 250 mil migrantes foram atendidos vindos de 96 países. “Hoje a média é de 500 migrantes atendidos por mês e prestamos toda essa ajuda, pois sabemos que entrar em outra cultura não é fácil”, argumenta ele, que é haitiano.

O professor Jurandir, um dos voluntários do Centro, trouxe muitos dados para que os alunos pudessem entender a realidade desses migrantes. Segundo ele, estamos vivendo o momento de migração dos “novos rostos”, pessoas provenientes de lugares como Caribe, América do Sul, África e Ásia Meridional, que representam, só no Brasil, mais de 120 mil indivíduos (conforme estimativas do Núcleo de Pesquisa do CIBAI Migrações de maio de 2018).

O africano Mohammed, de Serra Leoa, destacou que aqui em Porto Alegre teve novas oportunidades e fez novos amigos, mas que a língua é uma desvantagem. Ele está fazendo aulas de português, mas no momento se comunica em inglês. “Eu amo o Brasil”, declarou. Já a engenheira industrial Gilda, que trabalha na General Motors, veio para cá em razão de uma proposta de trabalho da empresa lá. “O apoio da família é fundamental, mas aprender sobre a economia do país para o qual você vai também é importante”, ressaltou ao contar que as taxas de juros aqui são muito mais altas que na Venezuela.

Para finalizar, a professora Adriane Caldas destacou a riqueza dessa troca de experiências, idiomas e culturas. “Nos emocionamos com as histórias de vocês e enxergamos como o cuidado com o outro é fundamental, algo que o idioma deveria facilitar”, ponderou.